Enviado por Alejandro Drewes
De Francisco Garcao
Lamento o falecimento de Mario Benedetti, cuja obra conheço mal, infelizmente. A morte de alguém, nomeadamente um artista e pessoa digna, é sempre dolorosa. Como homenagem mínima, mando esta Elegia, que tem a ver com um pintor que conheci e que morreu infaustamente. Pois a morte de um autor é um pouco a morte de todos...! PALETA ao pintor António M., falecido por conta própria Existe - pensa ele - um sítio demasiado imóvel(as sombras teriam sido azuis, se acasonão se tivesse lido a página ao lado) recantoabsolutamente adormecido. Mas Antóniocom o tal efeito de plenituderesistindo ao calor, olhando devagara mosca no horizonte, o cheiro do estrumeantes de se estender de novo na cadeirade braços - sabe que não passou viv’alma por ali.É fácilé comoventeficar-se na varanda para um outro destinoenquanto o tecido de algodão se cola à pelee a mão afaga algures uma nesga sombriaentre o ombro e a virilha. Assim como assimnão é possível fingirobrigar o palato, nas trevas, a servirde vitoriosa encenação de mais um erro. Equívocoscores entre comas, tal qual um gesto infalível- o que pode chamar-se sem resposta. Um traçoum traço apenaspercorrendo a ilusão cheia de solde casas, nomes, vozes mortas. António olha de novo indistintamente- o mínimo movimento seria decerto o fim. Nicolau Saião in “Flauta de Pan” O abraqson firme do ns. |